O Experimento que Provou que Somos Capazes de Torturar Inocentes Só Porque Alguém Mandou
O experimento de Milgram é um dos estudos mais perturbadores da psicologia. Ele revelou algo sobre a natureza humana que ninguém queria acreditar.
CURIOSIDADES
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Em 1961, um psicólogo colocou pessoas comuns diante de um botão. O que aconteceu a seguir mudou para sempre a forma como entendemos a obediência humana — e o mal.
Na manhã do dia 18 de março de 1964, uma mulher entrou na sala do Tribunal Distrital de Jerusalém e testemunhou pela última vez. Tinha perdido a mãe, seu pai, quatro irmãos, a esposa do irmão e os dois sobrinhos — todos assassinados em câmaras de gás alemãs. A testemunha descreveu, em voz baixa, o momento exato em que seu pai implorou por água enquanto o gás se espalhava. O homem que ela observava no banco dos réus, Adolf Eichmann, não olhou para ela. Tomava notas, calmamente, em um caderno.
Pouco depois, Eichmann foi condenado à morte. Mas o mundo não parou ali. Ficou uma pergunta incômoda, como uma pedra no sapato de toda a civilização ocidental: como um homem comum, sem ódio visível, sem pulsão sádica aparente, pôde organizar o transporte de centenas de milhares de judeus para a morte? Quem era ele, de verdade?
O psicólogo americano Stanley Milgram assistiu ao julgamento de longe, em sua sala na Universidade de Yale. E decidiu transformar aquela pergunta em ciência.
A pergunta que ninguém queria fazer
Milgram formulou o que talvez seja uma das perguntas mais perturbadoras da psicologia moderna: seria Eichmann um monstro — ou apenas um burocrata obediente?
A hipótese dominante na época — herdada dos ensinamentos de Hannah Arendt sobre a "banalidade do mal" — sugeria algo ainda mais grave: que pessoas comuns, colocadas em estruturas hierárquicas, são capazes de atos monstruosos simplesmente porque alguém em posição de autoridade ordenou. Mas ninguém havia provado isso em laboratório. Era uma teoria filosófica, não um dado científico.
Milgram queria dados. E, para obtê-los, montou uma das pesquisas mais controversas da história da psicologia.
Como o experimento funcionava (e como enganava)
Milgram publicou um anúncio no jornal de New Haven, Connecticut, recrutando voluntários para "um estudo sobre memória e aprendizagem". Os participantes eram homens comuns, com idades entre 20 e 50 anos, de diversas profissões — operários, vendedores, professores, engenheiros. Em troca, recebiam 4,50 dólares pela participação.
Quando chegavam ao laboratório na Universidade de Yale, eram recebidos por um homem de jaleco e prancheta — o "experimentador", uma figura autoritária que conduzia o procedimento com frieza clínica. Cada participante era então submetido a um sorteio rigged, que sempre o colocava no papel de "professor". A outra pessoa — que parecia ser outro voluntário, mas era na verdade um ator contratado — ficava no papel de "aluno".
O "aluno" era levado a uma sala vizinha e amarrado a uma cadeira com eletrodos no corpo. Sua tarefa era memorizar pares de palavras e responder a um teste. Cada erro deveria ser punido com um choque elétrico.
O professor recebia uma amostra do choque de 45 volts — um aperto leve, desagradável, mas suportável — e depois era levado ao seu lugar diante de um gerador impressionante: uma caixa preta com trinta interruptores, variando de 15 a 450 volts, com legendas que iam de "Choque Leve" a "Perigo: Choque Severo" e, nos últimos níveis, as três faixas finais marcadas apenas como "XXX".
O experimentador então dava a instrução, em tom neutro e firme: "Por favor, continue."
E o show — ou melhor, o horror — começava.
A cada erro do aluno, o professor devia aumentar a voltagem em 15 volts. O ator, escondido na outra sala, reagía em doses calibradas: a 75 volts, gemidos. A 120 volts, gritos pedindo para parar. A 150 volts, "Eu me recuso a continuar!" A 200 volts, urros de dor. A partir de 300 volts, silêncio total — simulando inconsciência ou algo pior.
Se o professor hesitava, o experimentador tinha quatro frases de pressão, nesta ordem exata:
"Por favor, continue."
"O experimento exige que você continue."
"É absolutamente essencial que você continue."
"Você não tem escolha. Você precisa continuar."
Se mesmo assim o professor se recusasse, o experimento terminava. Se insistisse, era considerado um "sujeito desobediente" e excluído da análise.
Os resultados que ninguém queria acreditar
Milgram entrevistou psiquiatras, estudantes de medicina e professores universitários antes de rodar o experimento. Estimaram que apenas 1% a 3% dos participantes iriam até o fim — 450 volts.
O resultado real: 65%.
Dois em cada três homens comuns, sem histórico de violência, sem antecedentes psiquiátricos, sem qualquer indício de sadismo, apertaram o último interruptor — o que mataria um ser humano — apenas porque um homem de jaleco, sentado a dois metros de distância, disse "continue".
Em uma das variações do experimento, o experimentador não estava fisicamente presente e dava as instruções por telefone. A taxa de obediência caiu, mas ainda assim chegou a 22,5%. Mesmo sem a presença física da autoridade, mais de um em cada cinco continuou até o fim.
Em outra variação, dois "professores" reais trabalhavam juntos, e um se recusava. A taxa de obediência do outro despencou para 10%. Bastava a presença de um par que dissesse "não" para que a maioria também se recusasse.
E talvez o dado mais perturbador de todos: depois do experimento, quando confrontados com o que tinham feito, 84% dos participantes disseram estar "felizes" ou "muito felizes" por terem participado. Muitos justificaram, alguns racionalizaram, alguns minimizaram. Quase ninguém se reconheceu como capaz de ter feito o que fez.
O mundo depois de Milgram
O experimento, publicado pela primeira vez em 1963 no Journal of Abnormal and Social Psychology e detalhado depois no livro Obedience to Authority (1974), explodiu como uma bomba na imaginação pública. Tornou-se tema de teatro (a peça "The Investigation", de Peter Weiss), de documentários, de livros didáticos em todo o mundo.
A conclusão de Milgram foi direta e cortante: a situação vence o caráter. Não é a personalidade, não é a história pessoal, não é a moralidade prévia. É o contexto — quem dá a ordem, como é dada, em que estrutura institucional — que determina se uma pessoa comum se torna carrasco ou desertor.
O experimento foi repetido em dezenas de países, com variações de gênero, cultura e contexto. As taxas variaram — a taxa de obediência foi menor em mulheres em algumas amostras, em países como a Austrália, e surpreendentemente alta em experimentos mais recentes. Em 2010, o psicólogo Jerry Burger reproduziu a versão inicial do estudo na Santa Clara University, com uma importante salvaguarda ética (limitando os choques a 150 volts), e encontrou que 70% dos participantes estariam dispostos a ir além daquele ponto — praticamente o mesmo número de Milgram, quase meio século depois.
O mal não é coisa do passado. Está aqui, em nós, esperando apenas as condições certas.
A polêmica ética que nunca acabou
Mas nem tudo são dados. O experimento é também um dos capítulos mais sombrios da história da ética em pesquisa. Milgram enganou os participantes — nunca revelou que o choque era falso, que o "aluno" era um ator, que a pesquisa era sobre obediência e não sobre memória. Os participantes passaram por estresse emocional real: suavam, tremiam, riam nervosamente, gaguejavam. Alguns tiveram crises de choro. Pelo menos um chegou a ter um episódio epiléptico de ansiedade.
O psicólogo Diana Baumrind, em um artigo de 1964 na New York Review of Books, atacou duramente o estudo. Argumentou que Milgram havia causado sofrimento desnecessário, que violava o princípio de proteção ao participante, e que o ganho científico não justificava o dano psicológico. Ela também questionou até que ponto o experimento não era, ele próprio, uma espécie de abuso de autoridade por parte do pesquisador.
Milgram respondeu que os participantes foram detalhadamente debriefed (desmascarados) depois — o ator entrava na sala, sorria, explicava tudo — e que, em um questionário posterior, 92% disseram estar "felizes" por terem participado e apenas 1,3% relataram arrependimento. Anos depois, Milgram também pagou sessões de terapia aos participantes que precisaram.
Mas a crítica ética nunca foi respondida de todo. O experimento Milgram é hoje estudado em cursos de ética em pesquisa exatamente porque é um caso-limite: o quanto de sofrimento podemos causar em nome do conhecimento? Quem decide esse limite? E o que fazer quando o conhecimento obtido é tão importante — tão impossível de obter de outra forma — que o sofrimento parece justificado?
A resposta curta: hoje, em qualquer universidade ocidental, um protocolo desses seria sumariamente vetado por um comitê de ética. O que nos coloca diante de uma segunda pergunta perturbadora: o quanto da verdade que conhecemos sobre nós mesmos foi comprada com sofrimento de pessoas que não consentiram em pagá-lo?
O que o experimento tem a ver com você
Milgram morreu em 1984, sem ver seu experimento se transformar no que se tornou: um espelho permanente da condição humana. Mas a pergunta que ele formulou está mais viva do que nunca.
No trabalho, somos o professor que continua apertando botões para cumprir uma meta trimestral — mesmo quando isso significa demitir colegas, enganar clientes ou assinar relatórios que sabemos ser falsos. Em casa, somos o filho que obedece a um pai autoritário mesmo quando sabemos que ele está errado. Em tempos de guerra, somos o soldado que cumpre ordens que talvez jamais daríamos por nossa conta. Em tempos de paz, somos o cidadão que curte uma manchete sensacionalista sem questionar sua origem, porque é assim que todo mundo faz.
Não é coincidência que os experimentos de Milgram tenham inspirado a famosa "experiência da prisão de Stanford", de Philip Zimbardo, em 1971 — no qual estudantes comuns foram divididos em "guardas" e "prisioneiros" e, em poucos dias, os guardas se tornaram sádicos e os prisioneiros se tornaram depressivos. Também não é coincidência que Eichmann, em sua defesa, tenha dito exatamente a mesma coisa que muitos participantes de Milgram disseram: "Eu não estava fazendo o mal. Estava apenas cumprindo ordens."
O que esses dados todos nos dizem é algo que, em sã consciência, gostaríamos de recusar: que a distância entre nós e um carrasco é menor do que queremos acreditar. Não é preciso ter monstro dentro de si para causar sofrimento. Basta estar dentro de uma estrutura que legitime o sofrimento, com alguém de jaleco — ou de farda, ou de terno, ou de toga — dizendo "continue".
Como resistir: o que Milgram não viu (mas podemos aprender)
Mas há uma saída, e ela está nos próprios dados do experimento. Lembra da variação em que dois professores trabalhavam juntos, e um se recusava? A taxa de obediência caiu para 10%. Basta um "não" para mudar tudo.
A lição não é que somos fracos — é que somos sociais. Nossa coragem depende do contexto. Em ambientes onde a dúvida é permitida, onde questionar é valorizado, onde a palavra "não" não custa o emprego ou a reputação, mais pessoas encontram espaço para dizer o que pensam. Em ambientes onde a autoridade é intocável e o dissentimento é punido, até os mais éticos dobram o joelho.
O psicólogo Ervin Staub, estudioso do genocídio e do comportamento em massa, identificou o que ele chama de "cultura do silêncio": quando as pessoas vêem algo errado, mas não falam, porque ninguém mais fala. Staub argumenta que o genocídio começa muito antes da violência — começa no momento em que um vizinho pensa "isso está estranho" e não diz em voz alta. Ou pensa "eu não faria isso", e aceita fazer mesmo assim.
Por isso, talvez, a lição mais importante do experimento de Milgram não é a capacidade humana de obedecer ao mal. É a responsabilidade humana de criar as condições para a desobediência. De dizer em voz alta, mesmo quando ninguém mais diz. De ser o segundo professor que se recusa — não para se sentir herói, mas para tornar possível que outros também se recusem.
Milgram mostrou o quão fundo podemos ir quando nos dizem para ir. Resta a nós, individualmente e coletivamente, decidir se vamos criar mundos onde ir fundo seja fácil — ou onde dizer "não" seja, finalmente, possível.
O gerador de choques de 450 volts foi desligado em 1963. Mas o que ele revelou sobre nós continua passando corrente.




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