A Sala 39 da Coreia do Norte: O Cofre Secreto que Financia uma Ditadura
Descubra o que é a misteriosa Sala 39 da Coreia do Norte, como ela funciona e por que ninguém fala abertamente sobre ela.
MISTERIOS
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Poucos lugares no mundo são tão opacos quanto os cofres que sustentam o regime norte-coreano. Enquanto milhões de norte-coreanos enfrentam fome crônica e o restante do planeta observa o país de longe, uma estrutura clandestina conhecida como Sala 39 (também chamada de Escritório 39, Departamento 39 ou, em coreano, 39호실) movimenta, segundo estimativas internacionais, entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão por ano — dinheiro que jamais passa por um banco central, jamais é declarado à ONU e serve para manter no poder a dinastia Kim.
Bem-vindo ao cofre mais fechado do planeta.
O que é a Sala 39
A Sala 39 é uma organização estatal de inteligência financeira vinculada diretamente ao Partido dos Trabalhadores da Coreia e à família Kim. Não se trata de uma agência pública com endereço conhecido, funcionários nomeados ou balanço contábil. É, na prática, um conglomerado clandestino de operações que reúne oficiais militares, agentes de inteligência, diplomatas, banqueiros e operadores de mercado sob um único teto: o Edifício 3 do Comitê Central do Partido, em Pyongyang — embora existam ramificações em todo o país e em embaixadas espalhadas pelo mundo.
A estrutura é composta por dezenas de subdivisões, cada uma especializada em um tipo de atividade. Algumas lidam exclusivamente com a falsificação de moeda estrangeira; outras com o tráfico de drogas; outras com a lavagem de dinheiro. Há células dedicadas à negociação de armas, à produção de cigarros falsificados, ao contrabando de metais raros, à venda ilegal de obras de arte e até à exportação de animais em extinção, como tigres siberianos e seus derivados usados em medicina tradicional asiática.
O controle é da família Kim. Reportagens investigativas e depoimentos de desertores indicam que os relatórios sobre o funcionamento da Sala 39 vão diretamente para Kim Jong-un — antes dele, para Kim Jong-il e, originalmente, para Kim Il-sung, que teria ordenado a criação do órgão no início da década de 1970.
Uma máquina nascida nos anos 1970
Para entender a Sala 39, é preciso voltar ao contexto da Coreia do Norte nos anos 70. Após a devastação da Guerra da Coreia (1950-1953), Pyongyang dependia pesadamente da ajuda soviética e chinesa. Mas a deterioração das relações com Moscou no fim da década de 1960 e o gradual afastamento da China maoista fizeram o regime perceber que precisaria de fontes próprias de receita em moeda forte — dólares, marcos, ienes — para bancar a importação de tecnologia, maquinaria e bens de luxo da elite.
A resposta veio na forma de um decreto pessoal de Kim Il-sung, segundo relatos do pesquisador coreano Kim Byeong-yeon e de desertores ouvidos por ONGs e órgãos de imprensa internacionais. Nascia a Sala 39, batizada em homenagem ao prédio onde funcionava inicialmente. A missão era simples em tese, brutal na prática: gerar divisas estrangeiras por qualquer meio necessário, sem jamais constar em registros públicos.
A queda do bloco soviético em 1991 aprofundou a dependência do regime em relação à Sala 39. Com a economia formal em colapso — a Grande Fome do meio da década de 1990 matou, segundo estimativas, entre 600 mil e 2,5 milhões de pessoas — a estrutura clandestina se tornou não apenas uma fonte paralela de renda, mas a principal artéria financeira do Estado.
As fontes de receita: um catálogo de ilegalidades
A genialidade (e a crueldade) da Sala 39 está na diversificação. Não há um único produto nem um único mercado. Há dezenas, todos operando simultaneamente, com células que se desconhecem entre si para reduzir o risco de uma delação derrubar todo o sistema.
Superdólares falsificados
Uma das atividades mais conhecidas é a falsificação de notas de US$ 100, apelidadas de "superdollars" pela Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos. A qualidade é, em alguns lotes, tão elevada que até bancos e casas de câmbio têm dificuldade em distinguir. O dinheiro entra em circulação por meio de redes de crime organizado no Sudeste Asiático, na Europa Oriental e, mais recentemente, na África. Estima-se que a Sala 39 produza entre 10 e 25 milhões de dólares falsos por ano, embora a variação de números seja enorme dependendo da fonte.
Narcóticos
A Coreia do Norte aparece em múltiplos relatórios da ONU como produtora de metanfetamina e, em menor escala, de heroína. Plantações e laboratórios ficam em regiões de fronteira com a China, longe dos olhos internacionais. O produto é vendido a cartéis e redes intermediárias, com a chancela estatal norte-coreana tornando a investigação praticamente impossível em território chinês.
Venda de armas
Apesar das sanções do Conselho de Segurança, a Coreia do Norte consegue exportar mísseis balísticos, tecnologia militar e componentes bélicos para países como Irã, Mianmar, Síria, Egito e diversos regimes africanos. Há registros robustos de comboios interceptados, componentes de motores apreendidos em portos europeus e remessas de armas leves vendidas em zonas de conflito na África Subsaariana.
Cigarros, álcool e medicamentos falsificados
Marcas ocidentais de cigarro, bebidas alcoólicas de luxo e medicamentos falsificados são produzidos em fábricas administradas diretamente pela Sala 39. Os produtos vão principalmente para a China e o Sudeste Asiático, onde a fiscalização é mais fraca. A margem de lucro é enorme, porque o custo de produção é praticamente zero.
Metais raros e bens culturais
A Coreia do Norte é rica em carvão, minério de ferro, terras raras, magnesita e zinco — todos sob sanções. Mesmo assim, a maior parte chega a portos chineses por meio de embarcações que desligam seus transponders (a famosa "frota escura") e operações de transbordo em alto-mar. Vendas clandestinas de antiguidades, selos, obras de arte e até medalhas "de presente" da família Kim também movimentam quantias menores, mas regulares.
Criptomoedas e cibercrime
Este é o capítulo mais novo da Sala 39. Desde 2017, hackers ligados ao Bureau de Reconhecimento Geral, em coordenação com a Sala 39, já roubaram mais de US$ 2 bilhões em criptomoedas, segundo estimativas da ONU e de empresas como a Chainalysis. Os ataques vão desde o famoso WannaCry de 2017, que paralisou hospitais e empresas no mundo inteiro, até invasões a corretoras como a Coincheck, no Japão, e o roubo de fundos da Ronin Network, do jogo Axie Infinity. O dinheiro, em sua maior parte, é lavado em corretoras chinesas e russas e convertido em moeda fiduciária que sustenta o programa nuclear.
Outros expedientes
A lista segue: extração de ouro de propriedades do regime no exterior, fraude de seguros, pirataria de software e filmes, tráfico de animais selvagens, golpes em sites de namoro e até a venda de passaportes diplomáticos — cada um avaliado em até US$ 20 mil no mercado negro.
Como o dinheiro volta para Pyongyang
O grande truque da Sala 39 não é apenas gerar o dinheiro — é trazê-lo de volta sem ser rastreado. Para isso, o regime usa três grandes rotas.
A primeira são as embaixadas. Diplomatas norte-coreanos no exterior são, frequentemente, obrigados a cumprir cotas: cada embaixada precisa gerar uma determinada quantia por mês. O embaixador vira, na prática, um gerente de vendas. O dinheiro é remetido em malas diplomáticas invioláveis, em transferências bancárias fracionadas (smurfing) ou simplesmente em dinheiro vivo carregado em aviões oficiais.
A segunda é a China. A fronteira de 1.352 km entre os dois países é permeável o suficiente para que a maior parte do fluxo financeiro, de bens e de pessoas passe por ali. Pequim, embora vote sanções na ONU, raramente as aplica com rigor — a Coreia do Norte funciona como um tampão estratégico entre a China e as tropas americanas estacionadas na Coreia do Sul.
A terceira é o sistema financeiro paralelo. Empresas de fachada em Hong Kong, Macau, Dubai, Singapura e Moscou operam como intermediárias. Muitas são administradas por cidadãos chineses, russos ou do Sudeste Asiático que recebem pequenas comissões. Os contratos, quando existem, são lavados em linguagem burocrática que torna quase impossível o rastreamento.
Para onde vai o dinheiro
A resposta oficial do regime seria: "para o povo". A resposta real, segundo relatórios da ONU, do Korea Institute for National Unification e do Royal United Services Institute (RUSI) britânico, é outra.
Uma parte significativa vai para o programa de armas nucleares e mísseis balísticos. Testes de mísseis hipersônicos em 2022, lançamentos de satélites espiões e a manutenção de um arsenal estimado em 30 a 70 ogivas nucleares custam centenas de milhões de dólares por ano — dinheiro que não pode aparecer em nenhum orçamento público.
Outra parte vai para o luxo da elite. O iate de 80 metros atribuído a Kim Jong-un, avaliado em mais de US$ 20 milhões, foi construído em segredo em um estaleiro da Rússia. Os carros Mercedes-Maybach blindados da escolta presidencial, os uísques Macallan servidos em jantares oficiais, os relógios Rolex e os perfumes exibidos pela primeira-dama Ri Sol-ju são comprados com recursos da Sala 39.
Há também verbas para operações de inteligência — incluindo, segundo relatórios, assassinatos de desertores e dissidentes em países como Malásia, Indonésia e até nos Estados Unidos. O caso do assassinato de Kim Jong-nam, meio-irmão de Kim Jong-un, no aeroporto de Kuala Lumpur em 2017, foi atribuído a agentes do Ministério da Segurança do Estado, mas com logística financeira viabilizada pela Sala 39.
Por fim, mas não menos importante, o dinheiro sustenta o exército de mais de 1,2 milhão de soldados ativos e paga a vasta rede de informantes que mantém o controle social sobre a população.
As sanções funcionam?
Desde 2006, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma série de resoluções cada vez mais duras contra a Coreia do Norte. Em teoria, qualquer transação financeira com entidades norte-coreanas é proibida. Na prática, o regime continua operando.
A explicação é simples: a Sala 39 foi projetada para sobreviver a sanções. Suas operações são descentralizadas, usam intermediários em países onde a fiscalização é fraca e se adaptam mais rápido do que os mecanismos internacionais de controle. Quando o sistema bancário tradicional se fechou, o regime migrou para criptomoedas. Quando a fiscalização aduaneira apertou, passou a usar navios com bandeira de conveniência e transbordos em alto-mar. Quando os dólares falsificados ficaram sob suspeita, a Sala 39 intensificou a mineração de criptomoedas e o cibercrime.
Há, porém, fissuras. Investigações recentes da Reuters e do The Guardian identificaram redes de empresas de fachada em Hong Kong, Dubai e Moscou que lavam dinheiro norte-coreano — algumas já sancionadas. A apreensão, em 2023, de um navio cargueiro carregado de minério de ferro na costa da Malásia mostrou que a "frota escura" não é invulnerável. E a cooperação entre o FBI, a Europol e agências asiáticas resultou, nos últimos anos, em prisões importantes.
Mas, enquanto houver clientes — Estados párias, ditaduras africanas, cartéis de drogas, redes de cibercriminosos — e enquanto a China continuar a tratar a Coreia do Norte como um vizinho estratégico, a Sala 39 vai continuar girando.
Por que isso importa para você
Pode parecer que a Sala 39 é um problema distante, restrito à geopolítica da península coreana. Não é. Os superdollars podem estar na gaveta de um restaurante que você frequenta. O cristal de metanfetamina que alimenta a crise de opioides nos Estados Unidos pode ter passado por uma fábrica norte-coreana. O ransomware que travou o hospital da sua cidade pode ter sido operado por hackers treinados em Pyongyang.
A Sala 39 é, em última análise, o exemplo mais acabado de como uma ditadura moderna se sustenta no século XXI: não pela produtividade da sua economia, não pelo apoio do seu povo, mas pela engenhosidade criminosa de uma elite disposta a tudo para se manter no poder.
É o maior cofre-fantasma do mundo. E, enquanto existir, a dinastia Kim também existirá.




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